Domingo, Dezembro 13, 2009

Bullet Point


O cigarro sempre bafejando no ar a sua presença, esticado entre os dedos petrificados na sua mão cálida. Os cabelos loiros sopram-lhe aos ouvidos elogios que fazem a ponta dos lábios esticarem-se como na pintura de um palhaço. Mas a ira é o seu riso.O esticar de lábios a sua frente de batalha. A água parece ferver no longo azul dos seus olhos. As sobrancelhas, outrora esticada sem expressão, fazem aparecer um olho furioso no meio das duas orbes incandescentes. A mão caiu sobre a mesa pondo um ponto de exclamação no fim da sua frase. Rodelas de cinza rolam sobre a toalha e o vermelho de vários olhos apagou-se contra o tecido.Os ombros descaem-lhe a figura para o lado esquerdo onde o braço a segura contra a mesa. No espelho que cobre a parede atrás dela espalham-se as suas costas, até aos ombros decotados. Num movimento de espada a mão dela correu o ar apontando a rua. Como se um avião cruzasse o céu, uma linha de fumo estica-se por cima de nós. Em cima da mesa amontoam-se lenços de papel usados, e um maço de cigarros amarrotado. Os restos desses cigarros rastejam para sair do cinzeiro superpopulado. Nas pontas dos seus lábios forma-se agora residuos de fúria. Eu vejo tudo isto, mas os meus ouvidos fugiram-me com um misto de medo e vergonha. A mão que a apoiava na mesa fechava-se na vertical, como que segurando uma espada. Voltei a correr-lhe os olhos e estes encontraram-me.

Água deixava-se cair ao fundo. Eu batia o fundo de um cigarro contra a mesa. Os nossos olhos voltaram a encontrar-se. A minha face parecia explodir em vergonha. A dela escondia toda a emoção que lhe corria no peito. Sentava-me sozinho junto de um guarda-sol que se empoleirava num velho pneu cheio de cimento. Ela bebia um sumo delicadamente da ponta de uma palhinha. Quando não bebia, o seu rosto erguia-se contra o vento que lhe cortava as faces. Os cabelos negros ainda que abanados pelo vento pareceiam segurar-lhe a cara num tempo de pedra. Tinha os olhos rasgados contra o negro dos cabelos a pintarem-lhe todo o disfarce de esfinge. O vestido branco revelava-lhe um pouco do peito, mas escondia-lhe os ombros. Corriam-lhe a figura os meus olhos mas pareciam fugir-me para os dela cada vez que o seu olhar se mudava. Os meus lábios nervosos esforçavam-se por sair da prisão dos dentes para sorrir de encontro à mesa cada vez que era apanhado na vigia. Sem ver o que olhava fixava a mesa de cabeça baixa até ser seguro.
Baixo a cabeça contra a mesa desarrumada . Pesa –me demais. A voz dela ecoa na sala silenciosa e aparentemente submersa em fumo. A janela mostra-me que lá fora tudo esta adormecido já. A cama esconde-se atrás da porta entreaberta do quarto. Os lençóis contam-me que ela já esteve deitada.Os seus olhos denunciam também o choro que correu por entre as suas faces, mas erguem-se secos na tempestada.Tudo cheira a fumo. A janela fechada como os seus ouvidos. Tudo abafado na cabeça dela. A fúria corre-lhe agora no sangue, expurgando toda a tristeza. Mais uma vez a sua mão desceu sobre o cinzeiro, esfaqueando–o com o que restava do cigarro acabando por matá-lo. As minhas mão revolvem o isqueiro, enquanto a minha cabeça revolve a vontade de pegar num cigarro. As palavras enrolam-se na minha boca e não falo. Não consigo falar. A boca selada pelo peito com um ferro em brasa.


Aclarei a garganta, mas ela nem se mexeu. Nervosamente as minhas mãos revolviam os bolsos procurando moedas de que não tinha necessidade. Dizia alguma coisa e o meu coração acelerava a cada palavra. Parado diante do trono egipcio que parecia envolve-la . A sua face continuava firme no horizonte que outrora me incluia. Senti-me numa audiência. Ela aproximou primeiro os olhos e só então a face se rodou. O sorriso surgiu de forma tão crescente que me pareceu uma flor desabrochando debaixo do seu nariz. O seu sorriso pareceu convidar-me a sentar e assim fiz. Horas depois, dias depois convida-me a sua cama. Não o seu sorriso nem o seu olhar mas as suas palavras de sotaque cravado à sua origem. Acedi sem sorrir. O coração ameaçava tombar-me de culpa. Ardia ainda um cigarro na minha mão que passei aos lábios dela. Os lábios cleopátricos sorriam-me da sua ignorância. Semi-nus, iluminados pela luz doentia de um candeeiro amarelo, deixamos que os corpos se aproximassem magnetizados por um cerebro cego. O peito queimava-me demais. Não sei que combustivel o fazia arder, e ainda hoje não sei. Culpa engrossada e viscosa, ou pura sensualidade alcoolica. Os cabelos negros dela cobriram-me a luz e fechei os olhos como assentindo o que me convidava. Pediu-me que sorrisse.

Peço-lhe que nos vamos deitar. Grita-me algo e acende um cigarro. É terça-feira, amanhã trabalho. Tenho tanto que fazer. As lágrimas surgem vaporizando a sua voz. Gritos enchem de novo o ar. Acabo acendendo um cigarro.

Acendi um cigarro e disse: “Acabou”. Ela chorava, desesperadamente pedindo-me em gemidos algo que não posso dar. A pronuncia dela queimava-me agora a minha garganta. O sentimento de culpa levando a melhor da sua sensualidade. Ela puxando dela recolhe uma madeixa negra atrás da orelha. O pouco comprimento acaba por fazer com que se balance de encontre aos seus olhos negros. Hipnotizo-me uma última vez. Levanto-me e saio pela porta. Vou pelas escadas, o cigarro proibindo-me o elevador.

Ela acaba por me probir as palavras, e sobe-se da cadeira. As lágrimas vão caindo sobre a carpete vermelha. Ela aproxima-se da cozinha e desaparece por trás da parede. Vejo tudo isto lentamente. Não sei se as lágrimas dilatando-me os olhos, dilatam-me também o cérebro.

Tudo é dor e impotência. Estou no sangue a sangrar. No chão, a chorar. Ela chora sobre mim. O revólver já frio na mesa. Matou-me. Há-de fazer 5 anos que a traí. Hoje não. Cheguei tarde, do trabalho. Estou morto. Já não choro, sangro. “É tudo culpa minha” diz ela. Não, é tudo culpa minha.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Estatística

"Uma hipótese pode ser definida neste contexto como uma conjectura acerca de uma ou mais populações"
Conjecturamo-nos futuros presos a sonhos de hipóteses esfiapadas. Populamo-nos de esperanças e desvios padrões. Desviamo-nos dos padrões em largos passos de felicidade. Adiamos a felicidade para conjecturas futuras. Jogo com as palavras. Lembro-me da prosa e da felicidade que a traz. Da tristeza que nela se cola sem esperar fumo branco na chaminé. Trago-te de volta, trago ácido e amarelo do tempo. Espelho nas palmas a cidade de que falamos e falamos de espelhos que reflectem as nossas mãos unidas. Unimos as mãos mais uma vez. Da forma que nos apetece. Puxo a impessoalidade para que te possas espelhar aqui. Tempo, tempo, tempo. Tempo demais que não chega para nada. Com um dedo faço congelar o quadro que mais me convêm. Com a mão rasgo no ar aquilo que sou. É escuro, é éfemero, é do tempo parado. Paro. Escrevo.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

breve, do tempo

Se os meus olhos te encontrarem com este amor que te trago no peito, beijar-te-ei. Sorri

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Não sou uma ilha

Num quadrado pequeno demais para se ver o mundo vão caindo palavras grandes demais para caberem no mundo. Eu esqueci-me que não me importo. Lembrei-me que sou humano. Quero escrever mais.

Segunda-feira, Março 02, 2009

Mastigar a vida

Mastigar o tempo com estes dentes cariados. Não o sol e a chuva. Mas os anos e meses. Tudo isto que vai enchendo o peito num balão que já estica mais. Sistema nervoso they call it . Eu chamo-lhe talvez tudo o que guardo. Tudo o que trago, armazeno e arquivo. O cotão das emoções que se vai acumulando debaixo de desejos poeirentos e frustrações renováveis. O mesmo ciclo sem ciclo novo. A mesma desilusão coberta pela mesma aparência. Tenho que ter este sorriso ao mundo. Já tive esta conversa. Não sei quem me obriga. Quem mo mostrava por exemplo, deixou-o cair de novo no quotidiano preto e branco. Quem mo mostrava com todas as cores, deixou-se fugir como areia na minha mão. Porque raio me faz falta tudo o que não tenho? Porque não encontro na prateleira o que perdi no coração. Aprisionado em mim próprio. Sem luz na mesinha de cabeceira. Sem folga para café. Sem folga para fumar. Talvez abra a janela de grades. Talvez mostre ao céu fatiado que também pode ser céu. Talvez mostra á vida aos bocados que também pode ser vida. Talvez mostre à vida que não pode continuar aos bocados.

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

200

A chuva já parou de chover, o dia que acorda tarde, ou cedo demais para a minha cama. O gelo cobre a chuva e o dia espera pacientemente nas gotas de água gelada. Os candeeiros mostram a luz já em vão contra o nascimento repetido do astro regente. As vozes ecoam contra o branco vazio da madrugada esquecida. A água corre e lava mais a mente do que o corpo, diluindo o turbilhão. Não é o fim do mundo diz-me Miguel Esteves Cardoso ao ouvido. Sou obrigado a sorrir. É talvez o fim do dia que começa. Uma distracção que surge como um bálsamo, o medicamento que rouba tanto tempo quanto dá. “É melhor fechar os olhos, é melhor fechar os olhos meu amor”. Talvez seja melhor fecha-los agora depois de os ter aberto tarde demais. Talvez estejam já fechados , já não veja nada do que escrevo. Não sei. Amanhã me direi.
*Duzentos. Maior ou menos qualidade, uma aprendizagem constante, desaprendendo constantemente.

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Quando eu era mais novo, havia uma coisa muito bonita que era a sedução

EA porta abre-se com uma sineta. Ele tira o casaco molhado e pendura-o num bengaleiro na entrada. Atrás do balcão o empregado prontamente tirou o cachimbo à máquina. Ele caminhou em direcção ao canto e sentou-se na mesa de olhos virados para a porta. O café chegou com o seu aroma a espalhar-se com a humidade. A humidade entrou também pela porta. A sineta fê-lo olhar pela porta e ver uns cabelos loiros que olhavam o guarda-chuva a fechar-se. A iminência do olhar dela fê-lo olhar de novo para o café que fumegava. Deixou cair o açúcar branco contra todo aquele castanho e esperou que ele se afundasse e que ela se sentasse. Pegou na colher e durante os movimentos rotativos vislumbrou-a já sentada junto ao balcão. Olhava para a lista com apetite. Ele olhava-a a ela. Apreciava-lhe a beleza. Os cabelos loiros caiam-lhe na direcção da mesa e alguns escondiam-lhe a testa. A boca de um vermelho pálido. Esticava de vez em quando os lábios como sinal de desaprovação do que lia. Ela subiu a franja com um gesto de cabeça, que como o fumo branco indicava que a sua escolha estava feita. Viu-lhe os olhos pela primeira vez, profundos como o nevoeiro de neve de janeiro. Rapidamente desviu o olhar antes que fosse apanhado. Pousou a colher no pires e levou a chávena à boca. Usando os dedos como escudo infantil, levou de novo os olhos à recém-chegada. Ela olhava o espaço vazio contemplando algo que não estava lá. Enquanto ele deixou cair o café na boca, ela moveu o vazio na direcção dele. Os olhos encontraram-se por pouco que pareceu muito. Como o flash das lâmpadas antes de se fundirem. Ele pousou então a chávena e pela periferia do olhar viu a mesa dela ser ocupada por uma chavena e um prato. Avançando na direcção dela com o olhar pousou na vitrina que ladeava a mesa dela. Viu o seu reflexo enquanto banhava o pacote de chá na sua chávena de café proporções desajeitadas. Enquanto fazia isso olhava para ele. Ele sabia-o, mas ela não sabia que ele o sabia. Como uma dança. Como uma dança foram-se olhando alternadamente enquanto ela esvaziava a sua mesa e ele esvaziava o seu pulmão de fumo. Quando terminou o seu cigarro ele ergueu-se da mesa. Do bolso retirou a moeda que deixou no tampo da mesa. Caminhou na direcção dela. Desta vez de olhar posto nas luvas que tentava calçar. Ela olhava para ele. Ele sabia-o e ela também. Ele desfraldou um sorriso enquanto passava por ela. Saiu para a rua onde a chuva ainda se fazia espalhar pelo vento. Caminhou mais uns metros até ouvir uma campainha. Nesse instante parou.