domingo, dezembro 13, 2009

Bullet Point


O cigarro sempre bafejando no ar a sua presença, esticado entre os dedos petrificados na sua mão cálida. Os cabelos loiros sopram-lhe aos ouvidos elogios que fazem a ponta dos lábios esticarem-se como na pintura de um palhaço. Mas a ira é o seu riso.O esticar de lábios a sua frente de batalha. A água parece ferver no longo azul dos seus olhos. As sobrancelhas, outrora esticada sem expressão, fazem aparecer um olho furioso no meio das duas orbes incandescentes. A mão caiu sobre a mesa pondo um ponto de exclamação no fim da sua frase. Rodelas de cinza rolam sobre a toalha e o vermelho de vários olhos apagou-se contra o tecido.Os ombros descaem-lhe a figura para o lado esquerdo onde o braço a segura contra a mesa. No espelho que cobre a parede atrás dela espalham-se as suas costas, até aos ombros decotados. Num movimento de espada a mão dela correu o ar apontando a rua. Como se um avião cruzasse o céu, uma linha de fumo estica-se por cima de nós. Em cima da mesa amontoam-se lenços de papel usados, e um maço de cigarros amarrotado. Os restos desses cigarros rastejam para sair do cinzeiro superpopulado. Nas pontas dos seus lábios forma-se agora residuos de fúria. Eu vejo tudo isto, mas os meus ouvidos fugiram-me com um misto de medo e vergonha. A mão que a apoiava na mesa fechava-se na vertical, como que segurando uma espada. Voltei a correr-lhe os olhos e estes encontraram-me.

Água deixava-se cair ao fundo. Eu batia o fundo de um cigarro contra a mesa. Os nossos olhos voltaram a encontrar-se. A minha face parecia explodir em vergonha. A dela escondia toda a emoção que lhe corria no peito. Sentava-me sozinho junto de um guarda-sol que se empoleirava num velho pneu cheio de cimento. Ela bebia um sumo delicadamente da ponta de uma palhinha. Quando não bebia, o seu rosto erguia-se contra o vento que lhe cortava as faces. Os cabelos negros ainda que abanados pelo vento pareceiam segurar-lhe a cara num tempo de pedra. Tinha os olhos rasgados contra o negro dos cabelos a pintarem-lhe todo o disfarce de esfinge. O vestido branco revelava-lhe um pouco do peito, mas escondia-lhe os ombros. Corriam-lhe a figura os meus olhos mas pareciam fugir-me para os dela cada vez que o seu olhar se mudava. Os meus lábios nervosos esforçavam-se por sair da prisão dos dentes para sorrir de encontro à mesa cada vez que era apanhado na vigia. Sem ver o que olhava fixava a mesa de cabeça baixa até ser seguro.
Baixo a cabeça contra a mesa desarrumada . Pesa –me demais. A voz dela ecoa na sala silenciosa e aparentemente submersa em fumo. A janela mostra-me que lá fora tudo esta adormecido já. A cama esconde-se atrás da porta entreaberta do quarto. Os lençóis contam-me que ela já esteve deitada.Os seus olhos denunciam também o choro que correu por entre as suas faces, mas erguem-se secos na tempestada.Tudo cheira a fumo. A janela fechada como os seus ouvidos. Tudo abafado na cabeça dela. A fúria corre-lhe agora no sangue, expurgando toda a tristeza. Mais uma vez a sua mão desceu sobre o cinzeiro, esfaqueando–o com o que restava do cigarro acabando por matá-lo. As minhas mão revolvem o isqueiro, enquanto a minha cabeça revolve a vontade de pegar num cigarro. As palavras enrolam-se na minha boca e não falo. Não consigo falar. A boca selada pelo peito com um ferro em brasa.


Aclarei a garganta, mas ela nem se mexeu. Nervosamente as minhas mãos revolviam os bolsos procurando moedas de que não tinha necessidade. Dizia alguma coisa e o meu coração acelerava a cada palavra. Parado diante do trono egipcio que parecia envolve-la . A sua face continuava firme no horizonte que outrora me incluia. Senti-me numa audiência. Ela aproximou primeiro os olhos e só então a face se rodou. O sorriso surgiu de forma tão crescente que me pareceu uma flor desabrochando debaixo do seu nariz. O seu sorriso pareceu convidar-me a sentar e assim fiz. Horas depois, dias depois convida-me a sua cama. Não o seu sorriso nem o seu olhar mas as suas palavras de sotaque cravado à sua origem. Acedi sem sorrir. O coração ameaçava tombar-me de culpa. Ardia ainda um cigarro na minha mão que passei aos lábios dela. Os lábios cleopátricos sorriam-me da sua ignorância. Semi-nus, iluminados pela luz doentia de um candeeiro amarelo, deixamos que os corpos se aproximassem magnetizados por um cerebro cego. O peito queimava-me demais. Não sei que combustivel o fazia arder, e ainda hoje não sei. Culpa engrossada e viscosa, ou pura sensualidade alcoolica. Os cabelos negros dela cobriram-me a luz e fechei os olhos como assentindo o que me convidava. Pediu-me que sorrisse.

Peço-lhe que nos vamos deitar. Grita-me algo e acende um cigarro. É terça-feira, amanhã trabalho. Tenho tanto que fazer. As lágrimas surgem vaporizando a sua voz. Gritos enchem de novo o ar. Acabo acendendo um cigarro.

Acendi um cigarro e disse: “Acabou”. Ela chorava, desesperadamente pedindo-me em gemidos algo que não posso dar. A pronuncia dela queimava-me agora a minha garganta. O sentimento de culpa levando a melhor da sua sensualidade. Ela puxando dela recolhe uma madeixa negra atrás da orelha. O pouco comprimento acaba por fazer com que se balance de encontre aos seus olhos negros. Hipnotizo-me uma última vez. Levanto-me e saio pela porta. Vou pelas escadas, o cigarro proibindo-me o elevador.

Ela acaba por me probir as palavras, e sobe-se da cadeira. As lágrimas vão caindo sobre a carpete vermelha. Ela aproxima-se da cozinha e desaparece por trás da parede. Vejo tudo isto lentamente. Não sei se as lágrimas dilatando-me os olhos, dilatam-me também o cérebro.

Tudo é dor e impotência. Estou no sangue a sangrar. No chão, a chorar. Ela chora sobre mim. O revólver já frio na mesa. Matou-me. Há-de fazer 5 anos que a traí. Hoje não. Cheguei tarde, do trabalho. Estou morto. Já não choro, sangro. “É tudo culpa minha” diz ela. Não, é tudo culpa minha.

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quinta-feira, novembro 06, 2008

Wise Up

Os olhos abriram-se num esforço que quebrou pestanas. Ela sentiu uma agitação imensa no seu quarto banhado por uma estranha claridade. O quarto parecia pintado de luz e os seus olhos queixavam-se disso mesmo. Agradeceu mentalmente à sombra do que parecia a sua mãe que se encavalitava junto á sua face. Ela parecia sorrir mas com uma expressão triste. Ela fez um esforço para sorrir mas a sua cara parecia dormente. Há quanto tempo estaria a dormir?
-Doçura? Consegues ouvir a mãe?
Tentou falar mas tudo o que lhe saiu foi um gemido que se parecia levemente com um sim. Como uma pequena bala esbatida a sua palavra deitou a mãe por terra e soou no ar o intenso soluçar de um choro. Que teria acontecido para a mãe estar a chorar? Os seus avós haviam morrido muito antes de Kate nascer. E pareciam ter levado as lágrimas da filha com eles. A mãe raramente chorava e o intenso movimento da cabeça dela sobre o colo de Kate parecia declarar o momento como solene.
O seu pai erguia-se solene contíguo á janela como a definir uma margem. A sua cara antecipava algum sofrimento e mais alguma coisa que Kate não conseguiu descortinar por entre a névoa que ainda lhe habitava as pupilas. Kate semi-cerrou os olhos para ver melhor a última memória antes de dormir. Festa. Tinha saído. Devia ser domingo porque a última lembrança que tinha era de uma madrugada bem bedida e dançanda na discoteca acompanhada das suas amigas. Kate ainda não tinha idade para beber nos seus menores 19 anos mas a maquilhagem e a sua beleza natural ajudavam a que ninguém lhe pedisse a falsa identificação que levava sempre consigo. Lembrava-se de estilhaçar um copo de vodka com sumo de maracujá no chão de azulejos pretos. Azulejos brancos pareciam forrar-lhe o quarto com toda a luz que as paredes emanavam. Viu o pai baixar a cabeça e abandonar o quarto de telemóvel na mão. Ficou admirada ao perceber que o pai estava em casa. Ao domingo de manhã ia sempre caçar com os amigos. Não que ela aprovasse tal actividade mas estranhou a presença do pai a um domingo.
Fez um esforço para se levantar mas ao mesmo tempo o conforto do quentinho da cama banhada pelo sol rapidamente a remeteu a um novo fechar de olhos encetando um novo sono.
Quando acordou de novo o sol já ia baixo. Os olhos abriram-se com novo custo apesar de a luz já cair lenta sobre o quarto. Agora que a luz não a enganava viu que as paredes cobriam-se com azulejos brancos havia uma serie de aparelhos à sua volta. Aos seu pés numa cadeira onde a mãe dormia sobre as suas mãos alvas apoiadas nos joelhos. O quarto guardava uma calma confirmada pelo enorme chorão que afagava o vento na rua.
Estava no hospital. Agora percebia as lágrimas da mãe. Reclamando pesadamente a sua cabeça funcionava agora ao ritmo normal. Tentou perceber porque estava ali. A sua última memória era a da discoteca onde todas as semanas espalhava a dança e a alegria com as suas amigas. Teria bebido de tal forma que precisara de ser desintoxicada? Provavelmente. Os pais não a iam deixar sair mais este mês.
«Bummer!» pensou Kate. Levou a mão à cabeça para coçar a intensa comichão que a atormentava. Havia uma ligadura na cabeça. «Uma ligadura na cabeça?» Provavelmente tinha batido com a cabeça aquando da sua inconsciência. Já tinha visto Sarah torcer um pé da mesma forma. Procurou os seus tornozelos para se certificar que estavam de boa saúde mas a cabeça rapidamente impediu o seu desejo respondendo com latejar à sua tentativa de alcançar alguma coisa abaixo da cintura. Ressaca. Kate conhecia bem os sintomas de uma boa ressaca. Mas a cor do por do sol parecia avisa-la de que o aperto no peito era mais que um mero sintoma.
-Mãe? chamou Kate sentindo uma ponta de egoísmo ao chamar a mãe de um merecido sono. Devia ter passado a noite em branco.
- Kate? Estás bem doçura?
-Dói-me a cabeça. - respondeu Kate apercebendo-se da lixa que se tinha tornado a sua garganta.
A mão levantou-se e sentou-se de lado na cama dela. Duas lágrimas seguiam a alta velocidade pela cara da sua mãe a baixo.
- Querida tu tiveste um acidente. - A cara de Kate abriu-se o possível com a surpresa de um novo dado algo chocante.
-Acidente?
-Tu estavas a conduzir...- a voz da mãe desfez em mais lágrimas de cristal que lhe iam arrastando o que ainda restava da maquilhagem - e tinhas bebido...
O coração de Kate acelerou a fundo abastecido com o que a mãe lhe dizia. «Merda! Um mês de castigo.»
- Doçura, tu... - de novo a interferência aguda na voz - tu não vais poder...
«Sair durante os próximos 20 anos» apontou mentalmente Kate
-Tu não vais poder andar Kate.
Uma bomba explodiu no centro do seu peito naquele instante. As suas mãos perderam as forças naquele instante. Toda ela perdeu as forças. O sol veio de novo clarear todo o quarto e as suas pálpebras não tiveram outro remédio senão fecharem-se.
Três dias depois Kate sentava-se no sofá da sala com a mãe e a lareira a crepitar. A mãe agarrava-lhe as mãos e conversava num tom calmo com ela. O pai ainda não lhe falava nem falaria por um ano. Kate baixou a cabeça e deixou baixar um mar dos olhos durante umas horas. Nascia ali o mar que a afogaria durante todas as noites durante anos. A mãe acabava de lhe dizer que devido ao álcool que carregava tinha conduzido do lado errado da estrada tendo embatido frontalmente num monovolume que levava uma mãe e uma filha de volta a casa. O mar nunca secaria.

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sexta-feira, junho 27, 2008

Good Bye Dollie

Os dedos brancos e afiados. Na ponta negras unhas enchem o ar da languidez do teu olhar. Fumo, muito fumo vai parando sobre ti. O branco redentor do teu sorriso apaga a impressão sombria de toda a tua figura. Foi a sombra que me atraiu. Trazias um isqueiro na mão. Um paralelepípedo que se acendia e apagava fazendo bailar sombras na tua face pálida. O autocarro fazia o teu esqueleto desajeitado dançar na noite silenciosa. Os braços magros ainda carregando a brancura da face. Era o pico do inverno e parecias pertencer à paisagem de neve e esqueletos de arvores que acenavam do lado de lá da janela. Eu olhava-te no reflexo do vidro pintalgado de neve e talvez por isso me parecesses um verdadeiro anjo. Quando a tua paragem chegou balançaste-te entre as metálicas barras que pareciam manter o autocarro inteiro. Passaste por mim e o cheiro das nuvens da primavera passou pela minha nuca, quase fazendo com que me estendesse no banco onde me equilibrava a custo. Tive de me segurar com mais força quando o autocarro resolveu parar. Eu resolvi sair em busca das tuas asas macias. Tu andavas a passos largos sempre desajeitados. A noite cobria-te juntamente com o casaco que te tornava um enorme amontoado de pelo. Só o negro dos teus cabelos se erguia a condizer com a noite polvilhada de pequenas luzes. Lembro-me de um avião rasgar o céu com as luzes vermelhas e brancas. Agora um fio vermelho rasga a o espaço da tua têmpora ao ouvido. O calor deste fim de verão fazia-te mostrar mais dessa pele alva. E nem a ventoinha a rodar permanentemente no tecto apagava as gotas de suor da tua pele. Lembro-me da primeira vez que te beijei. Os tentilhões anunciavam o primeiro verdadeiro dia de sol. Tu anunciavas-me a tua verdadeira sede. Fiz-te limonada com limões de casca grossa e tu uma careta de cara grossa ao sentir-lhe o amargo. Eu beijei-te a testa e os meus lábios clarearam-se contra a tua pele. Não fugiste, nem por instinto. O toque dos meus lábios com a tua pele pareceu congelar o tempo. E a ti. Os teus olhos cerrados. O meu coração a ribombar. Os teus olhos cerram-se também agora e o meu coração ainda não desacelerou. Larguei-te um mesmo beijo na mesma testa na mesma pele. Não escureceste um tom desde o inverno. A tua figura alva pareceu até aumentar o caudal de luz branca, já que com o cair do verão também as tuas roupas foram caindo. Lembro-me de quando vi as marcas negras que te habitavam os pulsos. 2 negras pulseiras junto ao azul das veias. Pareciam dar início as mãos e condiziam com o negro decadente das unhas. Impressas na pele as nódoas negras foram desaparecendo com os meus afagos constantes. Passei a beijar-te os pulsos, passei a beijar o pescoço. Tu passaste a fugir. Não por medo ou para mo negar. Mas sim para me provocar e provocar o inevitável. Hoje também fugiste antes de te estenderes rendida na relva. Esta parecia alegrar-se com a tua presença sombria. O verde da relva parecia colorir os teus braços tornando-os ainda mais pálidos. Tu parecias tornar o mundo mais silencioso. Com os olhos cheios de sol, uma lágrima estende-se sobre a minha cara. Lembro-me de quando Maio te trouxe de novo lágrimas. Era o aniversário da tua mãe e largavas dor por não a teres ao teu lado. Não tinhas culpa. Nada podias ter feito para passares mais um aniversário com ela. Limpei-te uma lágrima com o polegar enquanto os outros dedos se enterraram na tua nuca. Trouxe-te a cabeça para junto do meu beijo e os meus lábios só pararam para exalar o fumo de um cigarro no fim de tudo. Os teus olhos olhavam o ainda inexpressivo tecto mas as lágrimas já não rolavam sobre a tua face. Parecias desenhar o céu a cada volta da ventoinha e foi o que fizeste depois com o verniz preto. Não eram as tuas tintas, mas usaste o verniz negro para serpentear um fumo negro por todo o tecto deixando vários olhos marcados no caminho. Nunca mais fizemos amor nesse quarto. Talvez os olhos me assustassem. Pareciam sempre julgar-me. Olho à minha volta para ver se alguém te julga agora. A relva fica bem escondida atrás da casa, mas a tua lingerie pode atrair olhares mais curiosos. Lembro-me do teu olhar curioso sobre o teu ombro inchado de roupa. Vapor saia da tua boca anunciando o frio normal para esta altura do ano. Eu esfregava as mãos não para afastar o frio mas o embaraço. Seguia atrás de ti de passos inseguros depois de sair do autocarro. O principal medo que surgia na minha cabeça era o dela entrar numa qualquer entrada deixando-me órfão na noite. Tinha que agir depressa e não era tão bom nisso quanto devia. Como agora. Tenha que te levar para dentro antes que a tua pouca roupa chamasse atenção indevida. Agarrando-te nos braços arrasto-te para a casa deixando no verde uma enorme mancha vermelha. Lembrei-me então da primeira vez que te arrastei. Pesavas mais dessa vez. Os meses fechados naquela casa deixaram-te os ossos mais visíveis apesar de eu te ter alimentado bem. Comias pouco e mexias-te muito, mesmo quando as algemas ainda te apertavam os movimentos. Agora moves-te inanimada. Largo-te na cozinha, com o teu sangue ainda a espalhar-se no nosso chão. Abro a porta do armário e tiro um saco preto e a lixívia. Não tinhas que ter fugido. Os teus pais estavam quase a pagar. Era só mais um ou dois dias. E ao mesmo tempo que largo o saco, uma lágrima larga-se no meu rosto. Pode ser que paguem na mesma. E então nem tudo se perdeu.

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domingo, junho 01, 2008

Once you go you can never go back

O vento agitava-lhe as pequenas madeixas de cabelo que desciam em frente à sua testa. O sol esquentava-lhe o cabelo negro. Do rádio do carro alguém gritava por entre guitarras que estava na auto-estrada para o inferno. As chamas do inferno erguiam-se nos estofos do carro que condiziam com a pintura vermelha do carro. O vazio da capota recolhida parecia espalhar-se por toda a zona envolvente fazendo com que a estrada se equilibrasse no vazio dourado. Pequenos cactos castanhos e carcaças de animais bravios davam pequenos pontos de referência que o carro ultrapassava com grande velocidade. Conseguia ver o seu próprio olhar pelo retrovisor empoleirado em dois dados peludos. O sorriso quente não se via mas sentia-o bem a esticar-se na cara. O seus dedos tamborilavam no negro do volante.


Os dedos tamborilavam no negro do velho volante. O edifício principal estendia-se por 4 andares que bloqueavam o sol a nascer. Poucos carros se aventuravam ainda no parque de estacionamento da Universidade. O som que se ouvia era o de uma qualquer drogada da pop a reclamar contra o mundo injusto. "Coitadinhas das meninas" era o pensamento que saía dos negros cabelos escondidos por um gorro não menos negro. Fazia frio. Só o carro ligado impedia os vidros de se embaciarem a cada respiração. Mas não impedia o ar. O rádio velho do carro velho dava agora as notícias das sete. "Bom dia" o tanas pensou ele. Imaginava-se na voz daquela jornalista sulista daqui a umas horas. Sorriu. Quis mesmo rir. Mas rapidamente o recolheu. Havia algo a fazer. Com o velho motor a fazer abanar o seu assento carregou no pequeno isqueiro ao lado do cinzeiro. Esperou pacientemente enquanto este aquecia e quando saltou não perdeu tempo a agarrá-lo e estendendo a mão cravou o ferro em brasa nas costas da mão direita.


A mão esquerda segurava o isqueiro rectangular que largava um aroma de gasolina enquanto ia dançando uma chama no seu interior. Acendeu o cigarro e fechou o isqueiro contra a perna. Tinha-se encostado à berma para dar folga ao motor já demasiado quente e para encher os pulmões de fumo já demasiado vazios. Encostou o cigarro ao canto da boca e de uma caixa negra rectangular tirou uma guitarra igualmente negra que fez sentar no seu colo. Enquanto o cigarro lhe limpava os pulmões ele limpava a alma com uma canção num inglês imperceptível em que a palavra morte era uma constante. Ficou a dedilhar a guitarra enquanto o sol descia mais um pouco. O vento soprava satisfeito os cabelos negros dele que pareciam dançar ao som da música. Depois de refeito o peito guardou a guitarra de novo na caixa negra que cuidadosamente deitou no banco.


Tirou do banco cuidadosamente a caixa de guitarra. Tinha que ter cuidado para não fazer barulho. "Ainda não". A mão direita latejava incessantemente. Ainda assim ele carregava a grande mala com a mesma mão. "A dor é nossa amiga, mantém-nos alerta." Subiu os dois lanços de escadas que o separavam da porta e entrou pela grande porta da universidade que começava agora a acordar com alguns estudantes a passearem livros e bocejos. Ele olhava fixamente um ponto imaginário que marcava o horizonte. Passou por um par de corredores vazios e entrou na casa de banho do terceiro. Pousou a enorme caixa no chão e abrindo-a tirou uma barra metálica que usou para travar a porta. Com esta travada procurou na mala uma lata branca e retirando-lhe a tampa dirigiu-se para a parede mais vazia. A sua cabeça ainda cantava uma música calma, que não o acalmava mas mantinha o seu pensamento mais limpo e objectivo. Três espelhos erguiam-se contra a parede. Chegou-se junto da janela e começou a espalhar a tinta vermelha contra a parede branca. Com um sorriso nos lábios a tinta começou a formar palavras no branco.


Com um sorriso nos lábios largava palavras contra o vidro transparente. Repetia as de um artista qualquer enquanto sorria com a música a espalhar-se nas veias onde levavam a calma. A tinta vermelha espalhava-se agora no céu de fim de tarde.


Erguia-se também vermelha contra o horizonte a torre de uma estação de serviço, chamando para ela os que passavam no deserto. Ele foi cantando a metade de milha que o separava da torre. Encostou para dar de beber e beber. Foi fazendo bombear uns quantos galões para o depósito enquanto procurava no bolso uma nota que pagasse as bebidas. Seria bom ver alguém. Não que ele fosse um animal social. De todo. Mas neste sítio, nesta viagem seria bom ver alguém. Fechou o tanque e com as botas a baterem no alcatrão endurecido, dirigiu-se à pequena casinha apinhada de autocolantes.


Autocolantes apinhavam-se na parte interior da caixa de guitarra agora esventrada no chão. Um sorriso espalhava-se num deles mas não na cara dele. Agora estava concentrado a encher os bolsos com o conteúdo da grande mala preta. A lata de tinta tinha-se escostado a um canto e a universidade começava agora a acordar fazendo ouvir a sua respiração ofegante. Depois de vazia a longa caixa entrou para um cubículo e trancou a porta. Saltou por cima desta deixando lá dentro a caixa. Tirou a barra que empurrava a porta e atirou-a para dentro do cubículo ocupado. Saiu da casa de banho. A universidade tinha acordado com o seu atarefado rugido a percorrer os corredores. Ele estava parado junto à porta branca que sozinha se fechava.


Fechou a porta ao entrar e voltou a ouvir o sinal sonoro que avisava o dono da sua presença. Segurava na mão direita, que ostentava cicatrizes circulares, o dinheiro e a carta de condução que lhe permitiriam comprar qualquer coisa para afogar o peito.


A mão direita que segurava uma arma semi-automática ostentava uma cicatrizes circulares. A mão esquerda segurava um objecto parecido mas erguia-se paralela ao chão. O rugido fora substituido pelos gritos. Feridas circulares ocupavam pessoas e paredes, um vidro não tinha aguentado e espalhava-se agora no chão.


Por trás do balcão um vidro partido recortava o céu vermelho. Ele batia impacientemente no tampo do balcão enquanto olhava uma garrafa na estante em frente. A impaciência alargava-se agora às pernas e começou a percorrer os corredores da pequena e velha loja de conveniência.


Parou de percorrer os corredores quando regressou à porta de onde tinha saído há quinze minutos atrás. O chão enchia-se de gente, sangue, cápsulas de balas e restos de madeira lascada.


O chão enchia-se de excrementos de rato e cascalho que o vento tinha empurrado. Farto de esperar agarrou na garrafa que queria e saiu fechando a porta atrás de si.


Abriu a porta do cubículo com um pontapé e entrou lá para dentro, largou as armas no chão e pegou na caixa de guitarra com a mão esquerda.


Atirou a garrafa no banco de trás junto à caixa negra. Ligou o carro e espalhou pó arrancando para a estrada. Anoitecia mas não ligou as luzes. Levou o indicador e o dedo grande à têmpora para amenizar a dor de cabeça que começava a disparar com o anoitecer.


Na mão direita segurava ainda um revólver. As luzes azuis lambiam o vidro encostado à parede. Encostou o cano à têmpora. As costas da mão ainda latejavam. Ele sorriu.


A lua erguia-se já branca iluminando a estrada. Ele cantava. Os olhos fechados. O cabelo a ondular. A noite. A viagem.



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quarta-feira, maio 28, 2008

Take Five!

O fumo dos nossos cigarros dava-nos uma aura vermelha em conjunto com as luzes a que chamávamos "devil eyes" que nos olhavam de cima do palco. O meu trompete assim como a minha voz tinha perdido a força e a vontade de tocar apesar de o Louie me ir atirando "Yeah's" por trás do piano. Os meus olhos estavam fixos numa mesa onde um homem muito gordo se fazia acompanhar de dois relativamente magros. O mais gordo segurava na mão um charuto que largava no ar uma coluna de fumo branca. A minha coluna parecia identificar-se com a de fumo e abanava a cada oscilação de ar. E isso começava-se a notar no trompete.
Tocávamos num pardieiro chamado Hot Fyve que tinha trocado o i pelo y não por ser mais hip mas porque o nome original já tinha sido ocupado. O dono, Bobby, sentava-se atrás do balcão com o seu mau humor e mandava a sua namorada Pearl às mesas onde ainda respirava alguém. Mesmo com o seu mau feitio sempre a desfazer-lhe a cara os nossos cheques tinham cobertura ao fim do mês ao contrário de grandes estrelas de grandes clubes nocturnos. Era por isso que as notas que saiam do palco ainda faziam por sair direitas. O Joe arrastava-se pela bateria às vezes, culpa da idade e das drogas. Já pouco via. Os óculos deixava-os no camarim em detrimento da estética. Os olhos deixava-os por vezes em casa para encher o nariz de crack. Mas as suas baquetas iam explodindo ritmadas contra a bateria. O meu pé acompanhava-lhe o ritmo em dias normais. Hoje o Big Paulie era quem carregava no chão.E a mim parecia-me mais que arrastava o pé contra a arena como um touro enraivecido. Talvez fosse por isso que nas suas costas lhe chamassem Big Bull. Eu hoje arrastava-me pelo palco. Os dedos quando não carregavam contra o trompete, tremiam dedilhando um guitarra no ar. No canto o Jack dedilhava o contrabaixo com mais atenção ao chão do que ao mundo real. O Jack nunca precisou de inspirar nada para viajar na sua mente. Conheço-lhe as viagens desde que jogavamos baseball no descampado junto ao rio. Era dele que esperava mais na música. Uma carreira ao lado daqueles que enchem clubes em New Orleans. Mas a guerra desligou-lhe a ambição e passou a tocar com o mesmo empenho que comia ou que respirava. Na mesa do Big Paulie pareciam so respirar fumo. O ar parecia tornar-se irrespiravel tanto que eu precisava de um cigarro. Mas não queria de todo que o Louie falasse. O mais animado dos 5. A vida para ele era um prémio. As suas habilidades no piano eram menores que qualquer uma das nossas . Ainda assim era ele que o tocava e que liderava a banda. Podia haver quem pensasse que era por ser o único branco da banda, mas na verdade devia por ser o que mais se divertia na música. Quem parecia estar a divertir-se com a música era o gordo e os dois amigos. Há algum tempo que a música que tocava em deixara de divertir assim como a vida que tocava. Tudo se tornara mais pesado. E os pesos pareciam aumentar de tamanho a cada dia. O que eu queria era aumentar o tempo neste instante exacto. Expremia-o a cada nota neste último standart slow antes dos habituais cinco. A bateria parecia rufar um toque de funeral e o contrabaixo acompanhava-lhe o tom fúnebre. Deixamo-nos escorrer todos pela música até o meu trompete soar mais agudo. Então o Paulie quase que praguejou "Take Five" que tantas vezes desejei mas em que o meu coração quase parou.

Baixei-me para pousar o trompete e quando ergui a cabeça já um dos armários que acompanhava o Big Paulie acenava para uma cadeira à sua frente. Tirei um cigarro da mala do trompete e dirigi-me à mesa onde os devil eyes pareciam brilhar com mais intensidade. Sentei-me e procurei o isqueiro no bolso.

-Não vais precisar disto- disse o bizonte da direita enquanto me puxava o cigarro da boca.

- Então Tony que tal vai a vida? - disse o grande chefe por trás da sua enorme barriga que lhe toldava a voz.

- A mesma merda de sempre- respondi ainda irritado por não ter um cigarro entre dentes.

-Mas vai melhorar, não te preocupes Tony- disse ele num tom tão clemente que até fui capaz de respirar fundo- Desde que tenhas os meus 5 mil.

Então o último sopro que ainda habitava os meus pulmões escapou-se por entre os dentes que se apertavam uns contra os outros.

-Pois Mr.Paulie, acerca disso, é que o televisor avariou e tivemos que comprar outro, sabe que os miudos são loucos por aquele quadradinho, e o meu Donald não sabe viver sem a televisão.

-E sem pai?- indagou o Big Bull com toda a frieza de um assassino. O silêncio parecia ornamentar o olhar com que ele me olhava por entre o fumo do seu charuto.

-Let's go!

A voz do Louie para me salvar.

-Bem, Mr. Paulie divirta-se na segunda parte - disse a minha boca sozinha enquanto me levantava.

-Sem dúvida que sim. - respondeu-me ele num sorriso demasiado bom para quem não era um grande fã de jazz.

Pedi ao Paulie que tocassem uma sem mim e comecei a encher o peito de fumo. Ninguém me questionou. Fechei os olhos e ouvi como se fosse aquela a primeira vez que ouvia aquela musica. Respirei fundo. Abri os olhos e magicamente o Big Paulie tinha desparecido bem como a sua escolta. Fechei os olhos de novo e tirei mais uma passa do cigarro. Fora só mais uma ameaça. A quinta desde que tinha passado o prazo de devolução do dinheiro que me emprestara. O meu cigarro acompanhava o compasso da música enquanto na minha cabeça surgiam as notas. Visualizei toda a partitura. Era uma música alegre. Bastante alegre mas com um fim amargo. Hoje havia sido ao contrario. Uma melodia amrga mas com um fim mais alegre. O meu sapato batia já contra o palco. E recusei-me a abrir os olhos para mais uma passa. Até que ouvi um "não" seguido de uma correria pela madeira. Abri os olhos e vi o Bobby empurrar a Pearl para o chão. Só depois foquei o olhar na escuridão por trás do Bobby. Quase imediatamente ouvi a revoada de estrondos e senti como se levasse vários murros na zona do estômago. Cai quase imediatamente. Estilhaços do contra baixo voavam sobre mim enquanto ouvia os pratos da bateria chiarem. O nevoeiro começa a apoderar-se de mim. Vejo Louie deitado sobre o piano, na bateria já não mora ninguém e o Jack tosse junto de mim. Os seus olhos são calmos. Pearl grita lá à frente junto ao balcão. Há cinco corpos no chão. O meu trompete ergue-se a meu lado. Sopro nele. O último sopro. Já não é nada. Já não sou nada.

*concebido e escrito com a ajuda sonora da The Postcard Brass Band

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quarta-feira, março 12, 2008

Despicable

Sento-me pela manhã na mesa recatada de um café sossegado numa rua com pouco movimento. Espero pelo meu café, bocejo o meu cigarro e no fim mando calmamente pôr tudo na conta que pagarei no final da semana. Sou um homem de hábitos. Levanto-me sempre à mesma hora, vejo sempre o mesmo canal durante a torrada que me sirvo ao pequeno-almoço. Faço o chá, preto, sempre da mesma forma, no mesmo recipiente, colocando o saquinho dentro da agua quente sempre mesmo tempo. Tenho um problema com a desorganização.
É por isso que este fulano me faz ferver o sistema nervoso devagarinho.
Entra sempre a horas diferentes naquele café que é só meu. Há dias em que não vem ou nem se chega a encontrar comigo. O seu aspecto parece mais caótico a cada dia que a semana vai enchendo, e o seu ar varia de tal forma que às vezes nem me parece ele. Nunca vê ninguém a não ser o taciturno empregado de balcão com quem gosta de ter monólogos sensaborões sobre as manchetes dos jornais que se amontoam nos transportes públicos. Os seus óculos de péssimo estado e as suas bochechas de barba mal feita fazem só por si enervar qualquer ser humano com mínimas capacidades visuais. A sua postura e andar "i own the place" dão cabo de qualquer fígado de tão azedo.
Irrita-me e nada posso fazer. E por isso a frustração vai crescendo. Sou um assassino profissional. Sou muitas vezes eu que torno aquela facadinha no matrimónio literal, que resolvo à lei da bala quezílias e discussões. Sou eu que cobro literalmente o couro e o cabelo de caloteiros sem vergonha. Não é uma profissão de que possa falar em casa, mas a minha casa também não é daquelas onde se falam. O sangue espalhado no chão é a minha vida.
Mas não o posso matar a ele. A única coisa que me liga aos assassínios que faço são os molhos de notas deixadas em locais inóspitos. Se me ligo por um sentimento que seja então tudo pode ruir. Mas quero. Nas manhãs em que ele entra mais balançante só me apetece retirar a arma que trago junto às costelas e fazer um respiráculo naquele cérebro apodrecido. Chego a visualizar o círculo vermelho enquanto o sangue desliza até pingar do queixo para as sempre irritantes camisas brancas de fraldas de fora.
E não me entendam mal, eu não sou nenhum psicopata, ou sociopata, ou o normal tolinho que anda de rifle em punho a praticar o seu desporto favorito. E não deixo de espetar um balázio na tromba de alguém que não me agrade por medo de ser apanhado por um inspector gordo que fuma cigarros humedecidos com suor. Matar é o meu trabalho, e sei melhor que muita gente deixar o trabalho no "escritório". E sabia também deixar o mundo no sítio até este último caso.

As notícias, o trânsito e o tempo espalhavam-se pela casa enquanto me barbeava. Na minha cabeça não corria nada do que a televisão anunciava, mas sim a descrição exacta do que se iria passar. Tenho o hábito de narrar tudo do fim para o início, não sei se são tiques de profissão se de personalidade mas sempre foi assim. Imaginava primeiro tudo no sítio, depois eu a ordenar tudo, a morte, etc. Era o que corria na minha cabeça agora. A antecipação do serviço do dia. Ou pelo menos pensava eu.
Depois de empurrar a torrada, vestir o blazer e dar um último aperto ao nó da gravata fechei a porta reforçada do último andar que a esforço tinha transformado numa penthouse de luxo. Desci as escadas e fui visto por dois vizinhos que saiam também de suas casas. O prédio era fraco e os seus outros habitantes pobres. Assim o tinha escolhido eu. Esta gente tinha mais perguntas sobre si própria para se questionar sobre a vida dos outros. A minha vida também não era sujeita a questões, a gravata preta fora o início de uma desculpa para arranjar um carro funerário e deixá-lo à porta do prédio. A morte sempre limpa a cabeça de dúvidas, e no fundo nem a mentia, estava só um bocadinho antes de funerário na linha de comando. Sai para um sol radioso nada habitual de Janeiro. Caminhei calmamente até aquele que considerava o meu café. Também lá a minha profissão era tida como o que não era e assim é que estava bem.
O barulho de um sininho alertava o dono da minha presença. Mas hoje não era preciso. Senti o estômago revolver ao abrir da porta. Vi-me frente a frente com escassos metros de distância da personagem que me irritava solenemente. Com a calma injectada à força no sistema nervoso larguei no balcão um "bom dia" simplório e recolhido, tentando fazê-lo passar directamente ao senhor de avental.
-Bom dia ò chefe! E desculpe lá se lhe disser que não seja um tão bom dia pró seu negócio!
E após proferir esta frase no tom jocoso que a sua postura tornava nojento, desatou num riso tão desprezível que me vi mal para não dizer nada. Logo eu que sempre soube arrumar todas as emoções no fundo do poço. Sentei-me e pedi um café mas mesmo antes da sua chegada acendi um cigarro. Foquei a minha atenção nas nuvens alvas que saiam da ponta do cigarro enquanto largava nevoeiro sobre a mesa. O café caiu-me pesado no estômago e esta ainda reclamou mais quando o sujeitinho saiu e deixou um "Até manhã amigo" a dançar no ar.
Com uma palavra despedi o empregado e saiu para a rua de cigarro na boca. As nuvens que tinha largado lá dentro pareciam ter-se espalhado no seu cá fora. A minha disposição estava ainda mais enevoada. Sacudi os sapatos pretos e entrei no carro igualmente negro que reflectia a luz difundida nas nuvens. Arranquei para o destino pela rota programada na tarde anterior. Os dedos batucavam no volante a cada sinal vermelho e por isso decidi fazer-me acompanhar de música para que ela me limpasse o nervoso que ainda estalava nos meus dedos.
Depois de estacionar caminhei para o apartamento do alvo por um caminho de cascalho propositadamente. Além de me limpar os sapatos de qualquer areia indiciadora acalmava de uma maneira bestial. Era como um cerimónia tribal que preparava para o assassínio a seguir. Normalmente não precisava disto e começava a ficar inquieto. Para piorar uma chuva miudinha começou a cair no chão ainda quente do sol.
Procurei o número 23 e caminhei lentamente para a sua entrada. Verificando que a porta estava fechada e atravessei para o outro lado da rua. Olhei para o relógio e suspirei ao constatar que ainda estava dentro do plano. Com a companhia de um cigarro dirigi-me para a entrada do prédio oposto e longe dos olhares alheios esperei um movimento no 23. Depois de três cigarros a luz interior do prédio acendeu-se apesar da claridade que as onze da manhã espalhavam no céu enevoado. Atravessei para o outro lado e fingi tocar a uma campainha no exacto momento em que alguém saia do elevador. Aguardei um interlocutor fictício e quando o homem que saiu do elevador abriu a porta eu segurei-a dizendo para a minha suposta visita: "Já está aberta". O vizinho saiu e eu sai insuspeito. Enquanto subia no elevador tirei as luvas pretas do bolso, vesti-as e tirei do bolso umas algemas que segurei numa mão enquanto na outra segurei um pedaço de adesivo. Ao sair do elevador tirei o adesivo preto que coloquei no óculo do porta em frente à fracção B onde iria bater a seguir. Não devia estar ninguém em casa mas de qualquer forma não gosto de arriscar. O modus operandi é algo demasiado valioso para alguém como eu, e alguém ter uma pista que seja dele, é o mesmo que deitar toda uma carreira ao lixo.
Respirando fundo pressionei finalmente a campainha da porta que me interessava. Segurei uma algema aberta na mão direita enquanto esperava que o alvo magricelas e pálido abrisse a porta. Não tardou muito para ele aparecer com uma t-shirt velha e segurando uma toalha à volta da cintura.
"Bom dia, o meu nome é Pedro Amaral e trabalho para a Sentz Seguros" iniciei eu para quebrar o gelo enquanto estendi a mão com a algema dissimulada.
Logo ele me estendeu a dele num movimento mais reflexo e eu num movimento prendi-lhe esta à algema enquanto o meu joelho se enfiava contra o músculo da perna, causando a queda imediata. Rapidamente passei para trás dele prendendo a outra mão atrás das costas. Com um pontapé delicado empurrei-o para longe da porta para que esta fechasse. Com um pé fechei a porta enquanto me estiquei em direcção à camisola do alvo e lha enfiei na boca para que o barulho fosse menor. A surpresa do instante trabalha sempre comigo e por isso até calar o sujeito tudo tem que ser feito de uma assentada. Agarrando no colarinho por trás puxei-o até a casa da banho que tinha previamente estudado na planta. Lá chegado tive de passar do arrastar à força bruta, agarrando no magricelas cheio de medo e a pontapear tudo o que conseguia. A sua parca força e pouca agilidade fizeram embater a sua canela na parte debaixo da sanita o que causou guinchos abafados pelo tecido e uma menor agitação por parte dele. Aproveitando isso enfiei-o no chuveiro que me pareceu melhor opção do que a banheira com hidromassagem na altura de fazer o plano. Encostei-o de forma relativamente confortável mas os seus olhos esbugalhados espalhavam a agitação que os membros desgastados já não lhe permitiam. Aproximei-me de novo para abrir o chuveiro altura em que o franzininho decidiu espetar-me uma bela cabeçada na cintura. As minhas mãos evitaram-lhe a cabeça a tempo e nem hesitaram em enfiar-lha contra a parede. A força foi a suficiente para lhe fechar os olhos mas sem o deixar inconsciente. Abri o chuveiro e deixei que a água lhe suavizasse o choque. Afastando-me o suficiente para não apanhar com água, tirei do coldre que trago por baixo do braço a minha arma hoje tão infeliz e colocando o silenciador apontei-lha à cabeça. No instante exacto que abriu os olhos talvez sentindo o calor de ma bala apontada à sua cabeça, os seus olhos desfizeram-se numa expressão de medo. E neste preciso instante o meu mundo caiu. Pressionei o gatilho de forma errada. Com o medo que se apoderou de mim. A expressão que eu vi completamente assustada não era a do magricelas do número vinte e um da rua das magnólias mas sim a do gordo oleoso de carácter nojento e sentido de humor duvidoso. Quem eu tinha acabado de executar era ele, e ninguém me tinha pago para o assassinar. Felizmente a sua expressão só me tinha vindo assombrar no fim. Tentei expulsar o demónio de mim e voltar à rotina. Deixei a água correr até estancar a hemorragia, de qualquer maneira o finguelinhas não devia ter muito sangue. Fui à cozinha e procurei sacos do lixo. Como não encontrei um suficientemente grande tirei o que tinha trazido no bolso um daqueles pretos de grandes dimensões. Debaixo da banca procurei uma garrafa de lixívia. A boa arrumação da empregada deu-me facilmente o que queria. Fui até ao quarto e o nariz explicou-me que era seguro fumar aqui, tirei um cigarro e sentei-me na cama. Tentei expulsar todo aquele nervosismo de mim.
Já de noite deixei que um copo de Douro 2003 me escorresse na coluna e me limpasse esta carga que trazia. Tudo tinha acabado por correr bem. A casa limpa, o corpo desfigurado e abandonado como sempre. Sem razões para alarme. A não ser aquela cara que me tinha assombrado para sempre. E foi na placidez da lareira de Janeiro e com um cigarro a esfumar-se no ar que tomei a decisão que me traria aqui.
Na manhã seguinte, sem gravata no pescoço ou blazer a cobrir a camisa branca e o colete negro desci até ao café. A semi-automática enfiada nas costas presa pelas calças, o cigarro a escorre-me da boca. A barba por fazer e o cabelo desgrenhado de quem não se viu num único espelho. Os olhos fundos sobre olheiras negras como a noite branca. Os punhos cerrados em tensão pré-guerra.

Sentei-me de frente para a porta e pedi uma torrada e um sumo que se coloria por trás do vidro do balcão. O senhor Rodrigues por trás do balcão teve a hombridade de apenas subir a sobrancelha. Melhor para ele pensei eu. Já depois de eu pedir um novo maço de cigarros e o cinzeiro se encher dos restos do antigo o sininho no canto da porta dava a partida ao ritmo acelerado do meu coração. Com o seu ar gingão entrou o fantasma de toda a minha noite e disse no seu sorriso patético:
-Eh chefe, noite difícil!
Senti o meu estômago ferver como nunca antes. A minha expressão deve ter transparecido tão bem que ele virou-se rapidamente para o balcão e pediu o seu "pinguinho". Já o meu olhar nunca lhe saiu da nuca. A minha cabeça fervia com vontade de ver o cérebro dele fumegar à passagem de uma bala à queima-roupa. As suas mãos gordas e desajeitadas seguravam a chávena de onde sorvia o seu café descolorado. Até este acto era perfeitamente nojento. Hoje que me sentei mais próximo do balcão conseguia mesmo ouvir aquele barulho tão pouco civilizado. Tinha decidido não o fazer aqui. O café havia sido tão bom companheiro que não me parecia justo estragar assim com aparições macabras em todos os jornais. Aguardei que depositasse a moeda no balcão e soltasse palavras de despedida num tempo que pareceu eterno.
Com um acenar de cabeça deixei a minha despedida no balcão e meia dúzia de notas bem crescidas na mesa de onde me levantei.
Com a respiração já ofegante iniciei a perseguição e contei a custo 10 longos metros de distância do café. Terminado esse limite imposto por mim não perdi tempo a enfiar-lhe o pé pela perna a dentro. Senti o osso ceder e toda a sua figura balofa se espalhou no alcatrão de má qualidade. Só a queda deixou logo a sua delicada cabeça a sangrar. Fraco de merda! Conduzi repetidas vezes o meu pé contra as costelas protegidas por uma densa camada de gordura. Até que o meu desespero atingiu o clímax e ajoelhando-me em cima dele fiz colidir o meu punho com aquela cara que me assombrou e me fez perder tudo. Havia de lhe tirar para sempre aquela expressão parva da cara gorda. Quando já a minha respiração se desvanecia e a dele desaparecia levantei-me e olhando-o nos olhos ensanguentados e inchados, retirei das costas a arma quente do contacto e apontei-lha à cabeça. Já conseguia ouvir as sirenes e a minha respiração acalmou. Disparei e senti-me um peregrino chegando a Roma. O meu braço desceu apontando a arma à terra, e a policia não tardou a chegar. As mangas da camisa todas vermelhas e a arma na mão fizeram rapidamente o ponto da situação e não ofereci resistência para chegar aqui.
-Essa parte já nós sabemos senhor Semedo. Fale-nos das outras 42 mortes.
-O registo dessas pode encontrar em pastas separadas no meu escritório. -respondeu o homem de mangas vermelhas sentado na sala escura com um espelho onde ninguém se via e onde todos viam.


*uma pequena homenagem a um dos meus filmes favoritos De Battre Mon Coeur S'est Arrêté

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